Um dia frio, um bom lugar para ouvir pós-punk, sobretudo Joy Division. Sim, nesses dias eu começo a me transportar para aquela Manchester nublada, chuvosa, poluída e decadente da segunda metade dos anos 70 e início dos 80. Antes de comentar qualquer coisa sobre esse disco que tanto eu gosto, é importante dizer que eu não indico Joy Division para pessoas que não criaram aquela “casca” dentro do Rock. O tipo de som, de letra e sentimentos contidos ali demandam uma cerca dose de experiência e contexto. Se uma pessoa gosta logo de cara dessa banda, cuidado, ela não é normal.
Enfim, apesar de ter dado uma certa romantizada no cenário de Manchester daquela época, as coisas não iam nada bem para aqueles lados. Isso ajuda a explicar muito os temas abordados pelas bandas inglesas de pós-punk. Seria difícil cantar qualquer coisa alegre num período de crise econômica, tensões sociais crescentes e uma paisagem nada inspiradora. Mas dizem que são nestes cenários que a cultura entrega o que ela tem de melhor. Bom, nesse caso, foi real. Várias bandas, em diversos locais do país surgiram nesse momento de crise e o Joy Division foi uma delas.
Em 1979, a banda lançou seu espetacular disco de estreia, tema desta resenha, o “Unknown Pleasures”.
Logo de cara temos a faixa de abertura, “Disorder”, que entrega tudo aquilo que encontramos no restante do álbum: sentimentos intensos de isolamento, ansiedade urbana, desconexão emocional e a luta contra o descontrole interno. Pronto, dei spoiler, se você quer conhecer este disco, são esses os assuntos abordados nele. Agora vocês entendem quando falo que este tipo de som não é para quem chegou no rock ontem. Entender o contexto é fundamental para que a obra seja apreciada. Não era uma “tristeza” atoa, a juventude inglesa daquela época realmente estava sem esperança. Mas tudo isso não se aplica somente aquele momento da história. Enquanto o punk tradicional coloca a raiva pra fora e fala muito sobre questões externas, o pós-punk se volta pra dentro e trata de questões íntimas que fazem parte da vida de todos nós. Talvez seja por isso que quase 50 anos após seu lançamento esta obra-prima segue sendo ouvida e gerando reflexões.
She’s Lost Control é outra daquelas letras que carregam um sentimento muito pesado. Ela foi inspirada em uma garota que o Ian Curtis conheceu durante o tempo em que ele trabalhava em uma agência de empregos. Certo dia, ela sofreu um fortíssimo ataque epilético na frente dele, evento que o marcou profundamente. Ironicamente, tempos depois ele também foi diagnosticado com epilepsia. Instrumentação minimalista, versos repetidos e um tom vocal fantasmagórico transmitem todo o sentimento e gravidade daquele episódio.
Outro destaque é Interzone, música mais agitada do álbum e que conta com o vocal de apoio do baixista Peter Hook. Som energético, inspirado em Naked Lunch, romance do escritor William S. Burroughs, que narra uma terra de ninguém: lugar de caos, perigos, sem lei e decadente. Olhando o cenário de onde eles vieram, dá pra entender a inspiração.
Não preciso destacar tudo, pois acho que tudo o que envolve este álbum é o suficiente para despertar a curiosidades dos amantes do rock. Recomendo que ouçam e percebam a capacidade que o Ian Curtis tinha de traduzir o que se passava em seu íntimo em música. Alías, música que em algum momento irá dialogar diretamente conosco. Audição necessária!
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