Disco subestimado na discografia do RHCP
Eu costumo dizer que One Hot Minute, sexto álbum do Red Hot Chili Peppers, não é apenas subestimado, é também azarado. E isso em função de alguns fatores.
Três anos antes de seu lançamento, em 1992, no meio da turnê do Blood Sugar Sex Magik, o guitarrista John Frusciante resolveu abandonar o barco. Vale lembrar que o Blood Sugar foi um verdadeiro divisor de águas para o Red Hot. Esse era, até então, o disco mais bem-sucedido deles e colocou a banda no patamar das grandes no início dos anos 90. E quando o sucesso chega, tudo ao redor fica potencializado. Então, digamos que ele não estava pronto e não curtia a ideia de ter que lidar com a fama, a popularidade, os compromissos e as pressões que vieram no pacote comercial do trabalho. Sem falar que, naquela época, ele estava afundado na heroína.
Em 1993, por indicação do baterista Chad Smith, o ex-Jane's Addiction Dave Navarro assumiu como novo guitarrista. Problema: o cara tinha uma bagagem totalmente diferente em relação ao som feito pelo Red Hot. Ele vinha do hard rock psicodélico, pós-punk e glam rock. Mais ainda: não curtia o que a banda fazia, aquela coisa toda de funk rock. Bom, mas o resultado disso eu deixo para comentar mais adiante.
Como desgraça pouca é bobagem, o vocalista Anthony Kiedis, que estava sóbrio há anos, voltou a usar cocaína e heroína, o que afetou diretamente sua capacidade criativa e atrapalhou o andamento das composições e da gravação do novo disco.
Para quem ainda não entendeu, o Red Hot Chili Peppers havia perdido seu grande arquiteto melódico e seu principal letrista não conseguia colaborar, paralisado pelo vício.
E aí, o que fazer numa situação dessas?
Vendo o que estava acontecendo com a banda logo após atingir o tão sonhado sucesso, e encarando o fim de seu relacionamento, o baixista Flea resolveu assumir a linha de frente das letras do álbum. Motivos para impulsioná-lo não faltavam; o cara estava com sangue nos olhos.
Agora sim, tudo resolvido. Temos guitarrista e compositor, certo? Mais ou menos. Lembra que eu falei que não havia química entre o Dave Navarro e a sonoridade característica do Red Hot? Pois então: o que poderia ser mais uma dor de cabeça gerou algo que considero único na discografia deles. Lembrando que o Dave não chegou para ser somente um contratado. A banda quase esfacelada precisava de apoio criativo e foi isso que ele fez, trazendo elementos novos e mexendo até no processo de composição.
É nítida a presença da psicodelia nesse disco; várias faixas trazem esse elemento. A principal delas, pelo menos como referência, é "Tearjerker". Parece que alguns trechos foram tirados integralmente da música "The Wind Cries Mary", do Jimi Hendrix. Sinceramente, não sei se eles já falaram sobre isso, mas me parece até uma citação direta, tamanha a semelhança. Inclusive, a canção faz uma homenagem a Kurt Cobain, morto em 1994. Na letra, vemos como o Anthony Kiedis sentiu a partida dele e como o admirava, embora os dois não fossem tão próximos assim.
Ainda sobre perdas, essa sim de alguém íntimo, a faixa "Transcending" é uma homenagem do Flea ao seu amigo, o ator River Phoenix, falecido em 1993.
Falando sobre a pluralidade sonora deste trabalho, algo que eu gosto muito, temos elementos de metal alternativo em "Warped" (exceto nos vocais, que possuem muita psicodelia) e "Coffee Shop". Aquele funk rock tradicional do Red Hot aparece na música mais famosa do disco, "Aeroplane", e há até influências de jazz-funk e acid jazz em "Walkabout". Para finalizar os destaques, a faixa que mais mescla estilos é "Deep Kick". Ela inicia com um monólogo do Flea, passa bons minutos numa jam psicodélica, explode em peso com características funk e deságua novamente na psicodelia.
Muitos fãs não gostam desse disco exatamente por causa dessa mistura toda. Na visão deles, One Hot Minute marca a perda da identidade clássica do Red Hot. Tem muita psicodelia, muito hard rock, parece uma filial do Jane's Addiction. Não preciso dizer que penso completamente diferente, né? É exatamente a fusão de todos esses gêneros que me prende a esse álbum, embora eu reconheça que ele é bem diferente do seu antecessor e daquilo que a banda sempre fez.
Passando pelas composições, só tenho a dizer que as letras não são nada festivas. O contexto dos integrantes diz tudo. O instrumental pode soar agitado e tudo mais, só que o conteúdo chega a ser bem melancólico em vários momentos.
Outro fator que me faz enxergar esse disco como "azarado", além de tudo o que já foi mencionado sobre o momento vivido, é o fato de ele estar prensado entre os dois maiores sucessos da história do Red Hot: Blood Sugar Sex Magik (1991) e Californication (1999). No meio desses dois gigantes, quase não dá para enxergar nosso querido One Hot Minute.
Mas, na minha opinião, se ele tivesse saído pós-Stadium Arcadium (2006), a visão das pessoas seria bem diferente. Não tenho dúvidas de que seria muito mais aclamado. Na boa, não tem comparação com o material lançado de 2011 para cá. Todos, sem exceção, levam uma surra. Claro, meu critério para afirmar isso está na sonoridade que me fez gostar do grupo. Os últimos soam pop e descaracterizados demais, sem falar na quantidade de músicas que normalmente só ocupam espaço e são bem fracas.
Duvida disso? Faça o teste. O que deixou esse disco quase esquecido foi simplesmente o lugar que ele ocupa na cronologia da banda.
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